Este tem sido um mês atípico, e semana passada não foi possível postar o texto sobre LGBT do nosso querido Daniel Henrique. Felizmente as coisas estão entrando nos eixos e hoje, excepcionalmente uma quarta-feira, seu texto vai ao ar.
Sou fã, babo pelos textos do moço, e me encho de orgulho dele fazer parte da equipe do A Vida Secreta. O texto de hoje pode parecer pegadinha, em um blog que preza (e muito) as vidas secretas, mas não… É um texto extremamente lúcido e reflexivo que vale a pena ser lido por aqueles que querem sair do armário, ou não!
*E se você tem Twitter, não deixe de seguir o Daniel, @IntimoContraste
Fora ou dentro do Armário?
Todos possuem direito a vida secreta, mas e quando sentimos a necessidade de uma vida sem segredos? Será necessário expor a sexualidade para outras pessoas ou o que se faz em quatro paredes não interessa a mais ninguém?
Quando temos um fetiche normalmente isso não vai interessar a outras pessoas, nem afetar diretamente outros aspectos sociais. O que você gosta ou deixa de gostar na cama só importa a você e seu parceiro. Porém quando estamos falando de orientação sexual a história complica.
Algumas pessoas sabem que são gays desde criança e apresentam vários sinais de sua sexualidade enquanto crescem, enquanto outras só vão se descobrir homossexuais mais velhas. Em ambos os casos o processo de aceitação não é simples.
A discriminação existe, isso é fato, sair do armário nem sempre é o melhor a se fazer, cada um sabe a hora, se é que essa hora existe para todos, afinal nem sempre é necessário, ou mesmo possível se assumir.
Segundo uma pesquisa feita pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, durante a Parada LGBT do ano passado, um em cada três gays assume a homossexualidade antes dos 15 anos. Parece que a idade para “sair do armário” está diminuindo, será isso um sinal positivo de que os jovens estão entendendo a sexualidade com mais naturalidade? E será que a sociedade está pronta para aceitar a diversidade sexual?
Coming Out
O “Coming Out”, no Brasil o famoso “sair do armário”, é uma expressão que simboliza o processo de assumir a homossexualidade. Entre minhas pesquisas encontrei um modelo base que achei interessante compartilhar (clique no link para ler o texto completo).
Segundo esse modelo o primeiro estágio é o de auto-reconhecimento como gay. Mais do que uma consciência de atração para os membros do mesmo sexo, envolve a confusão, tentativas de negação, e muitas vezes o compromisso religioso para “superar” a sexualidade. Acredito que é o momento mais importante, você pode até continuar dentro do armário para a sociedade, mas se aceitar como gay ou não é um conflito íntimo e difícil.
Nesse momento o homossexual será bastante enrustido. Começa então uma procura sobre informações e respostas.
O próximo estágio do processo é compartilhar essa informação com alguém de confiança. Um processo lento que pode ajudar a auto-estima caso a pessoa tenha uma reação positiva.
A próxima fase é a convivência com outros gays. Socializar proporciona a experiência que a pessoa não está sozinha no mundo, e há outras pessoas como ele ou ela. O contato com modelos positivos de homossexuais podem desempenhar um papel importante nesta fase, além de mostrar que as pessoas não são iguais, independente de serem héteros, gays, lésbicas ou bissexuais, cada pessoa é única e pode fugir dos padrões e estereótipos criados.
A auto-identificação positiva é a fase onde a pessoa sente-se bem sobre si mesmo, buscando relações positivas com outros gays, sentindo-se realizado e satisfeito. Depois disso vêm a integração, o indivíduo não precisa necessariamente ser declaradamente gay para sociedade, mas ele pode apoiar outros gays que estão se descobrindo. Ele já se aceitou gay, agora ele pode e quer ajudar outras pessoas nesse processo.
Por último pode ocorrer uma visibilidade e participação mais ativa na comunidade gay. E enfim, as portas do armário estão escancaradas, risos…
Claro que é só um modelo, cada pessoa tem seu caminho, muitas vivem a vida inteira dentro do armário; outras inventam uma vida hétero, casam, tem filhos, porém constroem em paralelo uma vida secreta homossexual, o que infelizmente é comum.
O BBB do Armário aberto – ou aquele da Diversidade
Eu não considero que estou fora do armário. Tenho amigos gays, namoro outro homem, meus amigos mais próximos sabem de mim, porém no trabalho eu ainda tento não demonstrar minha orientação sexual.
Será que as pessoas me tratariam com naturalidade se soubessem que sou gay?
Sei que o BBB já está acabando, mas não podia deixar de comentar sobre o programa. Para quem não acompanha a edição atual do programa, foram selecionados três homossexuais assumidos para formarem o grupo dos “Coloridos”. E como isso anda repercutindo na vida real?
A conclusão que cheguei é que as pessoas não viram – ou não demonstram escancaradamente – problema nos coloridos do BBB, são engraçados, são simpáticos, possuem gírias legais, qual o problema então né? Mas e se seu filho fosse gay, você acharia tão normal assim? Eu acredito que não.
O programa selecionou os participantes homossexuais para dar audiência, claro. Mas o BBB10 está gerando reflexões e fazendo a população pensar no gay, não apenas ignora-lo. Eu não acredito que um dos “coloridos” ganhará o programa, pelo contrário, tudo indica que o Dourado, tachado como homofóbico e extremamente machista, levará o prêmio. Isso só reflete a sociedade machista que ainda vivemos, mas mesmo assim a participação de Dicesar, Sérgio e Angélica como homossexuais assumidos marcam um avanço na televisão brasileira.
O Peso de ser diferente
Existem pessoas que procuram uma forma de “cura”. A homossexualidade não é uma doença, mas até hoje não sabemos qual o motivos de sentirmos atração por pessoas de sexo semelhante. Se é errado ser gay quem pode responder?
Amo alguém e quero ser feliz, deveria ser simples, mas não é.
Para quem ainda procura respostas sobre a própria sexualidade encontrei um blog interessante, o “Não saia do Armário!”. O autor do blog expõe várias dúvidas e procura de alguma forma lutar contra os seus desejos; gostei da iniciativa em dividir suas reflexões com outras pessoas, apesar de não concordar que exista uma “cura” para a homossexualidade, respeito a opinião dele e acho fantástico como a internet facilita nossas vidas, aproximando pessoas com dúvidas e sentimentos semelhantes.
Um ótimo filme sobre aceitação é o “Orações para Bobby”. Um jovem se suicida após se sentir rejeitado pela mãe religiosa. A morte provoca um terremoto na família conservadora, e a história fica mais interessante com os desdobramentos: os parentes ficam se remoendo de culpa até encontrarem um caminho mais digno de superar o trauma. Vale a pena assistir e o filme emociona muita gente – héteros e homos.
Aproveitando o filme, lembro que o número de tentativas de suicídios entre os homossexuais é grande, ser diferente incomoda e machuca. Alguém se descobrindo diferente do que a sociedade diz ser normal precisa de ajuda e compreensão. Um gesto de um familiar ou amigo pode fazer a diferença.
E para quem está pensando em sair do armário o blog “Cuca Super Legal” tem 24 dicas, algumas muito engraçadas: “Sair do armário como drag não é muito indicado (a menos que você tenha os sapatos certos…) ” risos… ; além disso o blog “Vestiário” lista o top 10 das músicas internacionais para fazer o “Coming Out”, depois dessas músicas você já pode dar pinta a vontade… risos…
Nem dentro, nem fora.
Bem, não existe certo ou errado, o importante é procurar ser feliz consigo mesmo. Procurar outras pessoas ajuda no processo de aceitação e entendimento. Ninguém está sozinho, sempre existirá alguém que pensa como você. Ser gay não é fácil, dentro ou fora do armário sempre existirá situações que vão incomodar, cabe você escolher o que é o melhor para você, lembrando que sempre existe um meio termo onde você possa se sentir seguro.
Como eu já disse aqui uma vez: Diga sim à vida secreta e não à vida hipócrita. Escolha pela sua felicidade, dentro, fora, ou sem armário. (Muito clichê, mas eu vou terminar o texto mesmo assim… risos… )
Beijos, abraços e até breve.
Daniel Henrique
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Daniel Henrique é analista de sistemas, tem 22 anos e mora em SP. Como blogueiro, www.intimocontraste.com, encontrou no mundo virtual uma maneira de misturar razão e sentimentos para mostrar que ser gay é absolutamente normal.
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Estou vivendo um drama. Desconfiei do comportamento do meu companheiro na internet e resolvi investigar gravando as conversas do messenger e descobri que ele é homossexual enrustido. Conversei com ele e ele me disse que já teve relações com homens na adolescência, mas que não chegou a praticar o sexo anal, mas pelo que vi, vontade não lhe falta, só coragem. Não sei se é medo da dor ou de gostar e ter que encarar a verdade que ele insiste em não enxergar: que ele é gay. Gosto muito dele, mas desde então, apesar de nos relacionarmos sexualmente, não é a mesma coisa e sinto que estou vivendo com um “amigo”. Já conversei várias vezes com ele sobre isso, disse a verdade na cara dele, que eu acho que ele é gay, mas não consegue se assumir, mas ele nega e insiste em dizer que não quer isso, que quer ficar comigo, casar, etc. Mas, eu sei que nunca vai dar certo. Gostaria que ele conseguisse se aceitar e fosse viver a vida dele e eu a minha em paz. O que eu faço?
menina, menina,….mamãe não te ensinou a não mexer com quem tá quieto?
Eu não tenho a intenção de abrir o jogo sobre minha preferência pq muitas vezes é apenas um desejo sexual, e tbm não preciso decidir pra que lado eu vou, ficar com ambas as partes é ótimo. Gostei do post e acho que esse Sair do Armário é mais uma questão de aliviar a pressão, eu mesma não aguento ouvir alguém fazer comentário preconceituoso sem dar minha opinião em defesa da liberdade de escolhas. Eu acho ridículo a imposição que as pessoas ditas heterossexuais imaginam ser possíveis de realizar apenas por dizer “certo” ou “errado”, qdo o se passa na cabeça de cada um, o desejo, a vontade, não é nada que alguém possa descobrir ou julgar, senão cada um a si mesmo.
Beijos
sim sim Pedro, eu sempre defendo a teoria do ‘todo mundo tem um lado bom e outro ruim, mas o ruim só aparece quando é muuuuuuito provocado’, também acredito q no caso do meu amigo tenha sido assim, mas demorou muito pra ele ficar numa posição dominante na situação, além do q a decisão dele causou um vários problemas na família, foi um momento difícil e ele oscilava entre momentos de certeza e dúvida, quase um bipolar, de tão grande q foi o estrago, tanto na vida dele como na de outros, mas hj tudo está resolvido, quem quis ficou bem consigo e com ele, quem não quis, luta até hj, mas com o apoio total e irrestrito dele.
gostou do gatinho? :)
bjs
@Sentimental. Lendo o que você falou sobre o seu amigo sair do armario me fez lembrar de uma teoria antiga que eu tenho.
Eu acho que só quando nós somos levados ao extremo que mostramos realmente o melhor e o pior de nós. No caso do seu amigo, a reação das pessoas ao redor dele e o preconceito com que ele teve que lidar, foi uma mola para se colocar numa posição dominante em relação ao problema e lutar de cabeça erguida. Ja passei por problemas parecidos em situações diferentes, por ter uma visão de mundo muito discrepante das pessoas ao meu redor, e isso só me dava mais vontade de enfrentar o problema de peito aberto. Eu não sei bem o que acontece, mas é como se uma energia imensa e poderosa tomasse conta de vc e o impulsionasse a frente. É ótimo.
Não sei se quando for dizer publicamente sobre a minha bissexualidade vai acontecer isto comigo, mas te digo que quando vc consegue sair bem de problemas deste tipo, cada segundo de vida é delicioso e vale a pena ser vivido.
Isso é de alguem incomun que enfrentou coisas incomuns.
Bjod
PS: Adorei a foto do gatinho preto do seu blog. Foi uma mescla de humor com erotismo que ficou ótima.
é Dani, eu sei q primeiro nós e depois os outros, mas eu sinceramente não sei o q faria, talvez chegasse à essa conclusão, mas acredito q sofreria muito antes, pra depois pensar em mim, já é assim em coisas muito mais simples, imagina com um assunto sério como esse.
beijos
Primeiramente obrigado pelos elogios, digo e repito que é uma honra poder contribuir com o pouco que sei no AVS. Tenho aprendido muito com minhas pesquisas e textos, saber que vocês estão gostando do resultado é muito gratificante.
Entendo você Pedro, um dos principais motivos de não me assumir é minha carreira. Mas não vou mentir, me bate uma pontinha de inveja quando outros caras levam suas namoradas e mulheres em eventos, festas e eu não posso levar meu namorado. É estranho ter que viver escondendo a pessoa que você gosta.
Eu também pensava que levaria uma vida discreta para sempre B. , hoje já não tenho tanta certeza. Acho que estou no meio do modelo base que citei risos… Talvez tenha sido o namoro que mudou alguma coisa na minha forma de pensar, a vontade de poder estar com ele… enfim, a sexualidade da gente é mesmo muito estranha.
Já passei por isso de não querer magoar alguém também Sentimental. Me preocupava muito com minha família, até mais que comigo mesmo. Hoje eu já penso diferente também, claro que me preocupo com eles, e quero muito que não se sintam culpados ou preocupados pela minha orientação sexual. Mas agora eu penso mais em mim, ajo com naturalidade em casa, falo do meu namorado normalmente – claro que eles já se tocaram, mas a reação deles não foi tão ruim como eu imaginava, afinal eu sou filho/irmão e isso nada muda.
E é isso aí…
Beijocas pessoal.
Infelizmente a sociedade em q vivemos não permite q essa abertura de portas seja tão tranqüila e pacífica… Em qualquer rede de relacionamento [família, amigos, trabalho, escola...], um ou outro vai mudar o comportamento e fazer com q vc repense suas atitudes, fazer até com q se arrependa de ter revelado o q poderia ter ficado guardado. Conheço de perto um processo desse, hj a pessoa é super bem resolvida, mas o começo foi difícil e devastador, as conseqüências da revelação foram absurdas e causaram muitos problemas, a sorte é q o cara teve uma força incrível pra não se deixar no chão e levantou, hj, os mesmos q segregaram são os q mais amam e apóiam a decisão, e depois deles outros da família também se assumiram.
eu sinceramente não sei o q é mais fácil, mas acho q se eu estivesse na mesma situação me faltaria coragem, só por medo e receio de ‘magoar’ alguém, bobo isso né?
ótimo texto Daniel.
bjs
Tenho que concordar com o Pedro, também fico na expectativa pelos textos do Daniel e este texto foi mais uma grata surpresa.
A sexualidade da gente é um treco estranho… Minha primeira curiosidade sexual foi com alguém do mesmo sexo, mas a vida me encaminhou a uma heteronormatividade. Sinceramente, nunca fui infeliz por isso, gosto de sexo com homens, mas… A inicialmente a curiosidade me fez ter contato sexual com mulheres e posteriormente encontrar alguém especial me fez apaixonar por uma. Se ao longo da minha vida me envolverei afetivamente com outra menina, eu não sei. Tenho me relacionado apenas com homens atualmente. Aliás, neste momento até estou só… Nem homens, nem mulheres.
Não sou daquelas ativistas que levantam bandeiras, acho que cada um sabe da sua vida e do que vale a pena ou não ousar uma exposição mais aberta. Não me incomoda viver minha vida secreta levando uma vida discreta. Pra mim, esta receita tem funcionado, se vai ser pra sempre ou não…
Garoto, um dia vc precisa me dizer como consegue fazer tantos textos tão maravilhosos!. Eu sempre espero que um dia, os seus textos fiquem comuns e monotonos como os artigos de muitos blogueiros, mas vc sempre me surpreende exibindo os seus dotes literarios de maneira magistral e reflexiva. Eu queria escrever assim ..
Bem, elogios a parte, vamos ao que interessa. Eu sempre comento no AVS quando eu acho que é de valia e que vai ser útil para alguem. Detesto ficar falando só “post legal” ou “muito bom, continue assim” e não contribuir para o enriquecimento da matéria. No caso deste post, não sei se vou contribuir tanto, mas que vou tirar um certo peso das costas, ah vou!
Bem, recentemente eu descobri que tenho atração por homens da minha idade (18). Muito recentemente mesmo, até 1 anos atras, isso não passava pela minha cabeça. Mas um dia, eu notei que achava um amigo meu muito bonito, e comecei e me sentir muito atraido por ele. Até hoje eu não beijei nenhum homem, e nem tentei outros contatos, até pelo desconhecimento do assunto. Tenho bastante medo de me machucar. Mas, em relação a minha condição de me sentir atraido tanto por homens quanto por mulheres, estou confortavel. Não passei por um processo de negação ou nada do tipo.
Mas ainda bate o medo de revelar isso, por que, mesmo a minha familia sendo cabeça aberta e aceitando com naturalidade, eu ainda vou dar a cara a tapa para o resto do mundo. E isso poderia prejudicar a minha carreira. Olhando de longe, não existe nada que serviria de indicador para as minhas preferencias sexuais, ja que eu tenho aparencia bastante masculina, voz grossa, e nenhum trejeito. Uff, eu tenho certeza que muitos passam pela mesma situação, sofrendo silenciosamente.
Isso me irrita.
Bjos, Pedro.