Na faculdade uma das matérias era desenho de observação. Durante meses desenhei cubos, paralelepípedos, esferas, cilindros, todo tipo de sólidos de resolução. Um belo dia chego na aula, e vejo que a parafernália não estava montada para a observação, apesar do meu professor estar lá, no cantinho, conversando com um amigo e decidindo que musiquinha chata ia colocar de fundo. Bem que ofereci umas fitas (sim, ainda não era CD) do Pink Floyd, Jethro Tull e Led Zepelin que eu tinha na bolsa, mas… Meu professor disse que esse tipo de música era agitada demais. Deixei pra lá e fui para o meu cavalete aguardar o início da aula. Acabei engatando um papo com o amigo do meu professor, ficamos comentado sobre trilha sonora de filme e tal. Até que com a sala mais cheia, o professor bateu palmas e disse que a aula começaria enfim.
Nisso, o amigo do meu professor, pelo menos até então eu achava que era, calmamente começou a despir-se, dobrar as roupas de maneira organizada, colocar num canto e começou a alongar. Eu fiquei estática, o cara estava completamente nu a centímetros de mim. As alunas olhavam umas para as outras e expressavam uma mistura de reações. Eu fiquei muda, uma outra caiu numa gargalhada hstérica, outra simplesmente saiu da sala. Nunca nenhuma de nós havia tido aula com um modelo vivo. É calo que naquela sala não tinha nenhuma santinha pura, mas… A naturalidade com que o cara tirou a roupa alongou e foi para o centro da sala, em cima de um cubo maior, era espetacular.
Por quarenta minutos, com intervalos de cinco minutos a cada dez ficamos ali desenhando o homem nu. E eu não sei se feliz, ou infelizmente, o tal cara ficou parado em uma pose virada de frente pra mim. Super profissional, sem sorrir, olhar perdido… Estruturei toda a forma, seguindo as dicas do meu professor e usando as menditas formas dos sólidos de resolução tão exaustivamente estudados, mas… Eu simplesmente não conseguia desenhar o pau do modelo. E não porque fosse um Davi de Michelangelo, ínfimo, muito pelo contrário. Era um pauzão, que mole já chamava atenção. Eu desenhava a cabeça, torax, abdomen, coxas, joelhos pés, mas… O pau eu não desenhava.
En determinado momento, meu professor parou do meu lado e sorriu divertido. Perguntei o porque do sorriso e ele falou: “Não está faltando alguma coisa neste desenho?” e eu devo ter corado de vergonha. Ele pegou o lápis da minha mão, fez uns tres rabiscos e lá estava o pau rabiscado. Agradeci sem graça e ele falou baixinho: “Pelo menos vc desenhou o modelo, a sua colega ali só desenhou o genital dele, já perdeu as contas de quantas páginas gastou e é só o que consegue desenhar” e saiu rindo para ajudar a colega ao lado.
Com o tempo tornou-se algo tão natural desenhá-lo que eu nem ligava mais. Um semana era ele e na outra era uma menina. Até hoje eu não sei o que mais gosto de desenhar em matéria de nu. Se homem ou mulher, são formas diferentes, mas tem a mesma beleza. E o mais curioso, em dois anos de desenho da figura humana, nunca vi o modelo em ereção, sequer semi. Ele tinha um auto-controle absurdo, um profissionalismo a toda prova.
Recentemente deu cupim em uns papéis que eu tinha aqui em casa e entre eles estava o tal primeiro desenho. O desenho era horrível, um dos meus piores, mas… Impossível não lembrar divertida e até com certa ternura daquele dia em que eu simplesmente travei ao ver um pau!
Fala, moça!
Belo texto, não me interessa o desenho do pau…rs, mas vc podia colocar uns desenhos seus por aqui, que tal? Bjs e boas vibrações!
Hehehehe, deve ter sido digamos meio comico isso, se acontecesse isso comigo eu iria rir…

Beijoss
Boa idéia Sall, vou fazer alguns exclusivos para o blog. Beijos!
Be… Uma das meninas ria tanto, que não conseguia parar, foi realmente hilário.
Há! Rindo muito.
Trabalho de modelo vivo é FODA. Além de ficar muito tempo parado, tem que alongar muito, e mesmo assim, depois dá uma puta dor no corpo. Pelo menos paga mais ou menos bem.
Eu pagava pro ouvir as conversas de vocês logo depois de ficar lá desenhando o cara…
êta pau!!!
B. Parabéns a nós! Fomos linkados no site da revista Criativa http://revistacriativa.globo.com/Criativa/0,19125,ETT1593450-5458-1,00.html
BJo!!
B.
Sobre o texto nem se fala. Ótimo, pra va-reiar!
Parabéns pela matéria da Criativa sobre os blogs que eróticos e tudo mais.
Ah, tem musiquinha no Correio
Anda sumida, hein?
Beijos.
quantas sincronicidades: já namorei uma bailarina modelo vivo, adorava ver; frequentei na minha adolescencia inteira petropolis, nogueira e correas (vc é de lá?); meu pai é pintor e eu já pratiquei muito desenhos de observação, adoro nanquim mas ando parado; e finalmente, seu gosto musical é ótimo!
beijão e bom final de semana,
Manoel
Hahahah, tive a mesma reação!
No meu caso a matéria era Desenho 1, e o professor só escolhia modelos femininas porquê dizia que “uma pessoa que sabe desenhar bem o corpo feminino sabe desenhar qualquer coisa”. Agradeço à ele.
Mas minha reação foi a mesma. 17 anos, Universidade, segundo dia de aula… entra uma mulher das artes cênicas com o corpo inteiro definido, uns 25 anos. Fiquei bobo. Provavelmente a sala inteira. Aí com o tempo aquilo se torna natural.
Quanto ao lance do cara ter muito “auto controle”, acho extremamente natural o cara não ter uma ereção. É muita pressão você ficar completamente nu, nas mais variadas poses, na frente de 30 pessoas, desenhando cada curva sua, e ter cabeça fria (ou quente) o suficiente pra ter uma ereção.
O único caso que vi do cara ficar mais inquieto foi um dia que eram 2 modelos: um cara e uma mulher, em várias poses abraçados. Os dois nus, lógico. Depois ele me falou que aprendeu a “arte zen do pau mole”, haha. Mas bastou um chamado do professor pra apagar o fogo do garoto.