Violet, que já foi personagem de entrevista por aqui, é hoje leitora assídua e também amiga pessoal muito querida. Tenho hoje grande prazer de apresentá-la como nova integrante de um grupo que, juntamente com os amigos Daniel Henrique (cultura GLBT), Sommelier Secreto (vinhos) e Biti Averbach (moda/Design), tem nos ajudado a tornar o A Vida Secreta mais dinâmico e diversificado.
Duas palavras sobre o travestismo na Europa
O travestismo aqui na Europa é um fenômeno tão antigo quanto o começo das civilizações mais evoluídas.
Ainda na mitologia grega encontramos exemplos de travestismo, como o do pequeno Dionísio, que se disfarça de menina para evitar a vingança de Hera, ou Leucippo, que veste indumentária feminina para infiltrar-se entre as Ninfas, buscando a sua querida Daphne.
O travestismo tem uma conotação muito mais proeminente na Baixa Idade Média e na Renascença
, quando uma Europa dominada pela visão patriarcal e pela rígida divisão de papéis, na qual para uma mulher as duas únicas possibilidades de liberdade socialmente assumidas são aquelas que conduzem à marginalização (monja ou meretriz), leva em incontáveis casos as mulheres a transvestir-se com roupa masculina, para garantir independentemente a comida quotidiana. Trabalhando a terra ou atuando como soldado/cavaleira (o caso mais famoso é o de Joana d’Arc
, condenada em primeiro lugar pelo feito de negar-se com teimosia, até o fim do processo, livrar-se dos trajes masculinos).

Os "femminielli" tornaram-se personagens típicas napolitanas. Ainda hoje, costumam (entre outras atribuições) "cantar" as pedras em um divertido Bingo frequentado por mulheres. Imagem: www.insolitaguida.it
Particular relevância no curso da história, no caso do travestismo dos homens com indumentária feminina, tem os “femminielli”, residentes nas vizinhanças do centro histórico de Nápoles desde vários séculos, socialmente queridos e integrados na cidade de origem e parte da sua cultura popular, muitas vezes em cerimônias de bom augúrio e procissões religiosas. Os “femminielli” “entretém” também os marinheiros que voltam no porto de Nápoles, depois dos esforços da navegação (tarefa que havia sido muito penosa, para uma mulher genética, pela enorme força muscular dos marinheiros confrontada com os tamanhos comuns dos corpos naqueles tempos).
Desde o século XVIII se multiplicam os casos (sobre tudo na Inglaterra) de mulheres que, usando de maneira fraudulenta o travestismo com roupas masculinas, se casam com outras mulheres. Até o dia, ao fim do XIX século, no qual o psiquiatra austro-alemão Krafft-Ebing, no seu tratado Psychopatia sexualis, começa a falar da inversão sexual (referindo-se ao caso da condessa húngara Sarolta V – notar-se que claramente naquela época não existia o transexualismo, nem materialmente nem como idéia/noção), dando-o então uma dimensão psicológica-social-cultural, o tranvestismo das mulheres geralmente fica tolerado pelas leis das nações européias, exceto no caso do matrimônio fraudulento (naquelo caso, a tortura torna-se a regra, dado que aquele matrimônio põe em discussão o modelo heteronormativo imperante).
O travestismo na Europa tem perdido toda a sua força propulsiva e de quebra dos padrões de gênero nos anos 60 do século XX, a partir do surgimento de um feminismo que ridiculariza o excesso da estética feminina, característico de uma sociedade machista, e pela chegada cada vez mais poderosa da moda unisex.
O que fica hoje, é somente o estigma social.
Hoje na Itália, os travestis italianos podem ser denunciados, por uma lei (promulgada nos anos do terrorismo) que impede alterar as características faciais de uma maneira que seja impossivel ser reconhecido/a em respeito as fotos presentes nos documentos.
Enfim, tenho que apontar o feito que os travestis italianos não têm visibilidade porque não querem ter alguma, porque para eles fica mais confortável esconder-se que expor-se e combater as discriminações, coisa que delegam às associações transexuais, muitas vezes descontentes de assumir as reclamações de pessoas que não têm a coragem de expor-se pelos seus próprios direitos.
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Violet vive na devota Italia e tem características fisicas tipicamente etruscas. Oscila eternamente entre amor e vampirismo… mas entretanto escreve.
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É triste a imagem q se tem dos travestis ,principalmente vindo das outras” classes glbts ” préconceito esse vindo de quem deveria apoiar ,por viver tambem o préconceito pela homosexualidade ,É como se o travesti fosse a vergonha dos gays ,ISSO É RÍDICULO,nossa parte é tentar ao menos diminuir isso sou estílista e estou me transformando serei uma trava de sucesso ,sei q não sou pior q ninguem e tenho muito talento ,usarei disso para divulgar a causa onde for ,temos q mostrar que nem todos arrajam briga nem se prostituem ,somos filhos todos filhos de DEUS e como tal devemos lutar em busca da paz que um dia quem sabe poderemos conseguir.e que fique bem claro:
TEM QUE SER MUITO MACHO PRA VIRÁ TRAVESTI KKK.
Por algum tempo , infelizmente, criei um certo preconceito contra as travestis. A imagem que tinha, como a B. citou, era essa de encrenqueira.
Hoje tenho uma outra visão sobre o assunto, pude conhecer melhor e digo que felizmente me tornei um gay conciente rs.
Beijos.
Obrigada, B., também pelo feito de você lembrar a proibição do acesso aos teatros pelas mulheres em épocas passadas.
“Não sei se digo bobagem, mas percebo a figura do travesti, em qualquer cultura muito marginalizada, inclusive pelos próprios homossexuais, e pouco ativa. Quero acreditar que tudo não passa de impressão, mas… Infelizmente, a figura da travesti sem classe e que adora uma briga, ainda é a que permanece em evidência. Infelizmente.”
para mim, isso acontece porque os travestis não renovaram-se nos anos 60.
a época da indumentaria excessiva acabou, os movimentos LGBT voltaram-se muito mais politicos e os travestis não elaboraram novas propostas (exceto en anos mais recentes, nos quais buscam incluir-se num movimento de qualquer modo confuso e contraditorio como o trans-gender).
Realmente, na cultura mundial relatos de travestismo são mais comuns do que possamos imaginar. Fico imaginando aqui… A primeira Julieta foi um homem, já que nessa época era proibido por lei mulheres no teatro.
Recentemente na novela Caminho das Índias, as Hijras http://www.almacarioca.net/os-hijras-homens-ou-mulheres-lu-dias/ entraram em evidência. E eu, que pensava que se tratavam apenas de hermafroditas, pesquisando pude perceber que não é bem assim. Muitos pais, percebendo trejeitos efeminados em seus filhos homens, entregam o filho às casas de Hijras para que ele possa ser educado e transformado (castrado) como tal.
Não sei se digo bobagem, mas percebo a figura do travesti, em qualquer cultura muito marginalizada, inclusive pelos próprios homossexuais, e pouco ativa. Quero acreditar que tudo não passa de impressão, mas… Infelizmente, a figura da travesti sem classe e que adora uma briga, ainda é a que permanece em evidência. Infelizmente.
Tive um amiga travesti que chegou, inclusive, a fazer a operação de mudança de sexo. Era uma lady, delicada, feminina, extremamente respeitada por seus familiares, amigos e quem mais a conhecesse. Ela reclamava do fato das profissões estereotipadas (cabelereira, esteticista e atriz perfomista), que não davam opção.
Realmente, tanto na Europa quanto aqui, ainda há muito o que mudar a aprender. A História ainda não ensinou…
Beijos, querida Violet Erotica, sua contribuição certamente nos levou a uma melhor compreensão do contexto histórico, social e nos fez refletir.
B.
Palavras ao mesmo tempo lindíssimas e esclarecedoras. Bravo, Violeta Erotica!
obrigada Daniel, tenho uma forte paixão pelas dinamicas actuais (na sociedade, mas comunidades menoritarias e no folclore) que tem raizes profundas na historia ^^
É importante conhecer a história de algo que faz parte de nós.
Adorei o texto, devemos nos unir contra a discriminação, na Europa, no Brasil, no mundo.
Beijos para vocês.
;)