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Marchinhas de Carnaval e a Sexualidade em Debate

Sexta-feira, para muitos, começa hoje o carnaval!

Sou carioca, tenho 40 anos e cresci ouvindo sambas de enredo da melhor qualidade (pra quem gosta de samba, os anos 70 e 80 foram insuperáveis). Reza a lenda familiar, acho até que já comentei aqui, que meu primeiro carnaval aos quase sete meses de idade eu já me remexia no colo dos meus pais ao som de Festa Para um Rei Negro (aquela com o refrão: “Ô, lê, lê. Ô, la, la. Pega no ganzê. Pega no ganzá”), samba enredo do Salgueiro em 1971. Ou seja, de carnaval eu entendo! E entendo porque gosto.

Pelo menos aqui no Rio de Janeiro, carnaval é a época das musas foliãs, beijo livre, bloco das piranhas (época áurea para as crossdressers enrustidas), ficadas sem compromisso, amores de ocasião pra tudo se acabar na quarta-feira…

(Ai, ai.. Suspiro profundo aqui!)

E também é a época das marchinhas, que com suas letras simples e engraçadas, repetidas à exaustão lançam um olhar crítico à nossa sociedade. É assim desde o tempos de Chiquinha Gonzaga e fico feliz que, graças ao potencial turístico da Cidade Maravilhosa, os blocos (e marchinhas) estejam de volta ao carnaval.

Resolvi fazer um apanhado de algumas marchinhas que, com o maior bom humor (e às vezes algum preconceito, vá lá…), levaram à discussão temas ligados à sexualidade. Seja a orientação ou impotência sexual, o sexo seguro, a paixão nacional pelo bumbum feminino, ou até mesmo as diferenças da anatomia masculina. Tudo com muita malícia, cheio de duplo sentido.

Índio Quer Apito

Ê, ê, ê, ê, ê, Índio quer apito,
Se não der pau vai comer!
Lá no bananal mulher de branco
Levou pra pra índio colar esquisito.
Índio viu presente mais bonito.
Eu não quer colar! Índio quer apito!

Essa é antiga… Totalmente ímplícita, a paixão nacional é cantada há anos nessa marchinha, sem muita gente entender a mensagem subliminar. Meu pai contava que o tal “apito” dessa música era na verdade um “pum musical” soltado mela esposa do homem branco. Ou seja, pra que colar se o índio podia escolher a bunda da branquela?! rs…

Maria Sapatão

Maria Sapatão
Sapatão, Sapatão
De dia é Maria
De noite é João
O sapatão está na moda
O mundo aplaudiu
É um barato
É um sucesso
Dentro e fora do Brasil

Cantada por Chacrinha com letra de João Roberto Kelly, de maneira extremamente simples, o tema da homossexualidade feminina chegava à boca do povo. Uma mulher, que à noite vira homem, ou seja, como para bom entendedor meia palavra basta, alguém que sexualmente deseja outra mulher.  E ainda ressalta a naturalidade da condição, tanto no Brasil quanto no mundo. Genial!

Bota Camisinha

Bota camisinha
Bota meu amor
Que hoje tá chovendo
Não vai fazer calor
Bota a camisinha no pescoço
Bota geral
Não quero ver ninguém
Sem camisinha
Prá não se machucar
No carnaval…

Outro sucessão de Chacrinha, consta como sendo composição própria. Nos anos 80 foi o primeiro a abordar o sexo seguro de maneira tão alegre e divertida. Em uma época onde pouco se falava de métodos contraceptivos, DSTs e AIDS, o Velho Guerreiro ousou fazer dessa marchinha um verdadeiro mantra pelo sexo livre e saudável.

Cabeleira do Zezé

Olha a cabeleira do zezé
Será que ele é
Será que ele é
Será que ele é bossa nova
Será que ele é maomé
Parece que é transviado
Mas isso eu não sei se ele é
Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!

Essa letra de João Roberto Kelly é extremamente preconceituosa, mas totalmente contextualizada com a época. Anos 60, uma nova ordem mundial se impondo, e os cabeludos, claro, eram questionados. Tanto por seus gostos musicais, religiosos, quanto pela sexualidade, é lógico!

Pipa do Vovô

A pipa do vovô não sobe mais.
A pipa do vovô não sobe mais.
Apesar de fazer tanta força
o vovô foi passado pra trás.
Ele tentou mais uma empinadinha
A pipa não deu nenhuma subidinha
Ele tentou mais uma empinadinha
A pipa não deu nenhuma subidinha

Essa é bem divertida, uma verdadeira esculhambação de Sílvio Santos fazendo um trocadilho infame entre as palavras pipa e pica, zoando a impotência do vovô. Hoje, em tempos de viagra, certamente a pipa do vovô subiria… rs.

Pipoca

Pipoca meu bem, pipoca
Tem pro paulista, e também pro carioca
Pipoca meu bem, pipoca
Tem pro paulista, e também pro carioca

Tem pipoca branca
Tem pipoca colorida
Pipoca bem pequena
E pipoca bem comprida

Vem cá meu bem, que coisa louca
Quero botar pipoca na sua boca
Quero botar pipoca na sua boca

Outra marchinha do Sílvio Santos (o homem do baú é safadinho, hein?!), dessa fez falando da diversidade de pirocas, ops, pipocas que existem por aí. E ainda termina fazendo a piadinha (com outro trocadilho) insinuando o desejo de um sexo oral. Eita!!!

E você conhece outras marchinhas de carnaval safadinhas?!

Sobre B. A VIDA SECRETA

B. é editora do A Vida Secreta. Uma loba em pele de cordeirinha, que acredita que a consensualidade é a base de todos os relacionamentos.

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3 Respostas para “Marchinhas de Carnaval e a Sexualidade em Debate”

  1. @luallessi disse:

    eu nunca fui muito de carnaval porque na cidade onde cresci no interior do Paraná o povo curtia mais música gaúcha que o som tradicional do carnaval (e não mudou…Este ano não teve nem um bailinho sequer :(

    Mas meu pai é baiano e mesmo não pulando carnaval sempre curtiu samba e marchinhas que eu adoooooooro.

    As antigas então, são uma delícia. Sei lá, mas devia ser um tempo bom onde a música até podia ter uma conotação safada, mas a diversão era só isso…diversão. Hoje carnaval é vendido como uma festa de corpos desnudos e alto investimento…

    o que eu curto no carnaval hoje em dia é a quarta-feira de cinzas. Gosto de assistir apuração das escolas do Rio de Janeiro, mas não tenho preferência fixa. Este ano, como sou apaixonada por cinema, vou torcer pra Unidos da Tijuca.

  2. Sentimental disse:

    eu sinto falta do carnaval do Rio, do carnaval de antigamente, pq hj é só peitão, bundão e pegação…

    • B. disse:

      Eu lamento ter enjoado de carnaval, viu?! Afinal, hoje em dia está muito mais gostoso do que nos anos 80 e 90. A volta dos blocos de rua veio democratizar um carnaval que há muitos anos só se limitava à Marquês de Sapucaí. Quem não tinha dinheiro para pagar fantasia, só restava viajar mesmo… Pois aqui não tinha nada! Felizmente isso mudou.

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